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O recesso não é férias. É o mínimo.

  • Foto do escritor: Fidel Dias
    Fidel Dias
  • 22 de jun.
  • 4 min de leitura



Todo final de ano e toda virada de julho, a mesma cena se repete: o recesso forense começa, e os clientes — sobretudo os familiares de réus presos — entram em estado de alerta. "Doutor, e agora? Vai parar tudo?" "Doutor, mas o processo do meu marido não pode esperar isso." "Doutor, será que dá pra protocolar antes do recesso, pra não perder tempo?"

Entendo cada uma dessas perguntas. Quem tem um familiar preso vive contando os dias, e qualquer pausa no andamento processual parece uma eternidade. Mas eu preciso ser honesto com vocês, porque é assim que eu advogo: o recesso é, lamentavelmente, um período de paralisação dos prazos e da tramitação. Não vai sair sentença, não vai sair decisão sobre liberdade provisória, não vai andar o que já estava andando. Isso é uma característica do próprio sistema de justiça, não uma falha minha ou da minha equipe.

E é exatamente por isso que o recesso é tão importante para mim.

A advocacia artesanal cobra um preço que não aparece na conta

Advogo há 12 anos. E, ao longo desses 12 anos, meu descanso se resumiu, basicamente, aos dois períodos de recesso da Justiça. Não é reclamação — é uma escolha. A advocacia criminal que pratico, sobretudo a advocacia artesanal, aquela em que eu mesmo atendo o cliente, eu mesmo vou ao presídio, eu mesmo respondo a mensagem de madrugada porque a mãe do réu está desesperada, é uma advocacia que não tem armadura entre mim e o sofrimento de quem me procura. Isso me torna acessível. E a acessibilidade, quando bem usada, é uma virtude. Mas ela também significa que eu absorvo, todos os dias, a angústia de famílias inteiras.

Hoje, meu escritório tem uma média de 25 réus presos sob defesa simultânea. Cada um desses 25 representa uma família que liga, que manda mensagem, que aparece no escritório, que pergunta — com toda razão — pelo andamento do caso. Multiplique isso pela carga emocional de cada processo criminal, e está montado o quadro: um volume de pressão constante que não tem precedente em outras áreas do Direito com a mesma intensidade.

Isso desgasta. E advogado desgastado não pensa com a clareza que uma resposta à acusação exige, não escreve com o rigor que um habeas corpus precisa, não enxerga, na hora certa, a tese que vai libertar alguém.

O recesso não atrasa a defesa do seu familiar. Ele a fortalece.

Aqui está o ponto que eu quero deixar muito claro, especialmente para os clientes de escritórios com alta demanda como o meu: o recesso não vai fazer o processo andar mais rápido nem mais devagar — os prazos estão suspensos para todo mundo, em todos os processos, em todo o país. O que o recesso vai determinar é em que estado o seu advogado retorna ao trabalho.

Um advogado que descansa de verdade volta com a cabeça mais afiada para revisar teses, mais disposto para reler autos de 2 ou 3 mil páginas em busca daquele detalhe que muda o jogo, mais paciente para atender a família na audiência seguinte. Um advogado que não descansa — que aceita todo plantão, que atende todo cliente novo durante o recesso, que não desliga nunca — volta exatamente do jeito que saiu: cansado. E advogado cansado defendendo réu preso é um risco que nenhum cliente deveria querer correr.

Por isso, da próxima vez que o recesso se aproximar, eu peço uma coisa aos meus clientes: ao invés de pressionar por novidades que o calendário forense simplesmente não vai entregar, incentivem o descanso do seu advogado. Não é desinteresse pelo caso de vocês. É justamente o contrário — é cuidado com a qualidade da defesa que vocês vão receber no semestre seguinte.

Um recado para os advogados que estão começando

E aqui vai um ponto que considero essencial para quem está no início da carreira, porque eu mesmo demorei para aprender: durante o plantão judiciário, vão aparecer casos novos. Sempre aparecem. E a tentação de aceitar todos eles — pelo dinheiro, pelo medo de dizer não, pela vontade de construir reputação — é real.

Mas o plantão existe para emergências, não para virar uma extensão disfarçada do seu expediente normal. Antes de aceitar um caso novo durante o recesso, eu sugiro que o colega se pergunte: isso é, de fato, urgente — uma prisão em flagrante, uma medida que não pode esperar — ou é algo que cabe perfeitamente bem para ser tratado já no retorno, com você descansado e disponível de verdade?

Aprenda a filtrar. Recesso interrompido por qualquer demanda que pudesse esperar é recesso desperdiçado, e recesso desperdiçado significa que você vai começar o semestre seguinte já no débito — exatamente o problema que o período deveria resolver.

O descanso não é uma deslealdade com o cliente. É um compromisso com ele.

Defender alguém que está preso é uma responsabilidade que eu levo a sério todos os dias do ano, com a mesma seriedade nos 11 meses corridos e nas raras semanas de recesso. Mas seriedade não é incompatibilidade com descanso — é o oposto. É justamente porque eu levo a sério que eu preciso, de tempos em tempos, recarregar.

Aos meus clientes: o recesso vai passar rápido, e eu volto pronto para retomar cada caso com a energia que ele merece. Aos colegas que estão começando: aprendam a proteger esse tempo desde já. Ele não é luxo. É o mínimo que garante que vocês continuem entregando, ano após ano, a defesa que cada cliente — e cada família que espera do lado de fora de uma cela — merece.

Fidel Dias de Melo Gomes é advogado criminalista (OAB/AL 12.607), professor de Direito e autor de FUDEU (Editora Dialética).

 
 
 

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